Quando fiz 10 anos de casada, falei para meu marido: o que você acha da gente abrir o nosso casamento?
Quando completei 10 anos de casada, em vez de pedir uma viagem romântica ou uma festa, eu fiz uma pergunta que poderia mudar tudo: “O que você acha da gente abrir o nosso casamento?”. Não foi impulso, não foi provocação e muito menos brincadeira. Foi o resultado de anos de reflexão, crises silenciosas e a sensação incômoda de que, se nada mudasse, algo dentro de mim ia quebrar.
Nós tínhamos uma história sólida, filhos, contas para pagar, rotina, afeto, respeito. Mas também tínhamos o que muitos casais em longos relacionamentos conhecem bem: cansaço, repetição, silêncio sobre assuntos delicados e um medo enorme de falar de desejo – especialmente quando o desejo começava a olhar para além da relação.
Não era falta de amor, era excesso de sinceridade
A ideia de abrir o casamento não nasceu de uma falta de amor, e sim do oposto: de um amor grande o suficiente para não querer viver de fachada. Eu não queria trair em segredo, esconder conversas, inventar histórias. Queria a coragem – e o risco – de colocar tudo na mesa e perguntar:
“É possível continuar juntos, mas com mais liberdade? Dá para sermos parceiros e, ao mesmo tempo, admitir que o desejo não obedece a contratos sociais?”
Antes de falar com ele, eu já tinha passado por todas as culpas possíveis: a culpa de ser mulher e desejar; de ser esposa e não estar satisfeita com o “padrão”; de ser mãe e ainda assim querer espaço para ser indivíduo. A pergunta não era só sobre abrir o casamento. Era sobre abrir a verdade.
A reação dele: silêncio, medo e uma pergunta de volta
Quando finalmente falei, ele ficou em silêncio por alguns segundos que pareceram horas. Olhou para mim com um misto de espanto e defesa. A primeira reação foi quase automática:
“Você está apaixonada por alguém?”
Eu disse que não. Que não tinha um “alguém”. Tinha um incômodo, uma vontade de respirar, uma sensação de que estávamos vivendo no piloto automático. Expliquei que, para mim, abrir o casamento não significava sair “pegando todo mundo”, mas poder redefinir regras, conversar sobre desejo, falar de limites e possibilidades sem tabu.
Ele ouviu, questionou, ficou irritado, depois ficou triste. Disse que tinha medo de me perder, medo de se comparar com outros, medo de descobrir coisas sobre ele mesmo que não queria encarar. Mas, no meio de tudo isso, fez uma pergunta que mudou a conversa:
“O que você precisa de mim para não se sentir presa?”
O que significa “abrir” um casamento na vida real
Muita gente acha que casamento aberto é sinônimo de libertinagem, falta de compromisso, “cada um por si”. Na prática, é o contrário: se não houver comunicação, respeito, combinados claros e maturidade emocional, tudo desmorona em pouco tempo.
“Abrir o casamento” pode significar coisas muito diferentes para cada casal:
- desde poder flertar sem culpa, mas sem encontros físicos;
- até permitir encontros ocasionais com outras pessoas, dentro de regras combinadas;
- ou, para alguns, construir relações afetivas paralelas, com transparência.
No nosso caso, o começo nem passou por outras pessoas. Passou por conversar sobre coisas que não falávamos há anos: fantasias, inseguranças, frustrações, medos, ciúmes. Abrir o casamento, antes de qualquer coisa, foi abrir um canal de diálogo que, aos poucos, tinha se fechado.
A parte que ninguém conta: ciúmes, insegurança e teste de limites
Não existe casamento aberto sem ciúmes. A diferença é que, em vez de fingir que ele não existe, você precisa colocá-lo na mesa e discutir. O que dói mais: o beijo, a conversa, o segredo, o apego? Qual é o limite? O que é inegociável?
Também não existe esse modelo sem insegurança. Em algum momento, alguém vai se sentir menos desejado, mais vulnerável, ameaçado pelo outro. E é aí que muita gente desiste: porque o desconforto emocional é intenso e exige um nível de honestidade consigo mesmo que nem todo mundo está disposto a encarar.
Para nós, o processo foi cheio de idas e vindas. Tivemos momentos de entusiasmo, de medo e até de arrependimento. Em alguns períodos, recuamos e voltamos ao formato “tradicional” por um tempo. Em outros, testamos mais liberdade. Descobrimos, na prática, que não existe modelo perfeito, existe tentativa – e consequência.
O que eu descobri sobre mim e sobre o nosso casamento
Mais do que sobre sexo, abrir essa conversa me obrigou a olhar para questões que eu empurrava com a barriga:
- Eu sabia dizer o que eu queria ou só sabia dizer o que eu não queria?
- Eu estava buscando liberdade ou fuga?
- Eu queria de fato viver outras experiências ou apenas sentir que ainda tinha escolha?
- Nosso casamento estava ruim ou só estava adulto, maduro e menos excitante do que no começo?
Descobri que parte do meu desejo de “abrir” vinha da vontade de voltar a me sentir viva, vista, desejada – não só como esposa e mãe, mas como mulher, indivíduo. E percebi que isso não dependia apenas de olhar para fora, para outras pessoas, mas também de olhar para dentro e para a relação.
Vale a pena abrir um casamento?
Não existe resposta única. Para alguns casais, esse caminho pode ser libertador; para outros, pode ser o começo do fim. O que importa é entender que:
- abrir o casamento não salva uma relação que já está destruída;
- não é “remédio” para traição, tédio ou falta de diálogo;
- é um modelo possível, mas que exige responsabilidade emocional de ambas as partes;
- não dá para fazer isso escondendo sentimentos ou impondo a decisão ao outro.
Se a conversa sobre abrir o casamento aparece, é porque algo já está pedindo mudança – seja dentro da relação, seja dentro de quem faz a pergunta.
Mais do que abrir o casamento, abrir a conversa
No fim, a pergunta que eu fiz aos 10 anos de casada não foi um convite automático para viver um relacionamento aberto. Foi um pedido: não vamos viver no automático. Não vamos fingir que desejo, frustração, ciúmes e curiosidade não existem.
Se o casamento vai ser fechado, semiaberto, aberto ou nenhuma dessas caixinhas, cada casal é que decide. Mas uma coisa eu aprendi: pior do que o medo de abrir o relacionamento é a certeza de viver trancada dentro de uma vida que não foi realmente conversada.
