SAÚDE

Os riscos de usar canetas emagrecedoras por conta própria só por estética

Elas viralizaram nas redes sociais, viraram assunto em rodas de conversa e passaram a ser vistas como um “atalho” para o corpo magro: são as chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos injetáveis usados para perda de peso. O problema é que, junto com a popularização, cresceu também o uso sem orientação médica, comprado por conta própria e motivado apenas por estética – um cenário que pode trazer riscos sérios à saúde.

Apesar de serem apresentadas como solução rápida, essas medicações são remédios de uso controlado, com indicação específica, doses definidas, contraindicações e efeitos colaterais importantes. Usá-las como se fossem “cosméticos” é brincar com o próprio organismo.

O que são essas canetas emagrecedoras?

As canetas emagrecedoras são, em geral, medicamentos aplicados por via subcutânea (embaixo da pele) por meio de um dispositivo parecido com uma caneta. Elas costumam atuar em áreas como:

  • regulação do apetite – aumentando a sensação de saciedade;
  • esvaziamento gástrico – fazendo o alimento permanecer mais tempo no estômago;
  • controle da glicemia – em alguns casos, também usadas em tratamento de diabetes.

Por interferirem em mecanismos hormonais e metabólicos, é fundamental que sejam usadas com acompanhamento médico e exames. Não são vitaminas, não são suplementos “inofensivos” e muito menos produtos estéticos.

Por que usá-las por conta própria é perigoso?

Quando alguém decide usar essas canetas sem avaliação de um especialista, os riscos se multiplicam. Entre os principais problemas estão:

  • Dose inadequada: aumentar ou reduzir dose por conta própria pode causar desde efeitos mínimos até reações intensas, inclusive desmaios, mal-estar grave ou descontrole glicêmico.
  • Falta de indicação real: nem todo mundo tem perfil clínico para esse tipo de tratamento. Em muitos casos, bastaria ajustar alimentação, sono e atividade física.
  • Uso em pessoas com doenças prévias: quem tem problemas cardíacos, renais, hepáticos, gastrointestinais ou psiquiátricos pode ter o quadro agravado.
  • Interação com outros medicamentos: associar canetas emagrecedoras com outros remédios (inclusive antidepressivos, ansiolíticos e antidiabéticos) sem orientação é arriscado.

Além disso, o uso sem acompanhamento tende a ignorar uma parte essencial do tratamento: mudança de estilo de vida. Sem isso, o peso costuma voltar quando a medicação é interrompida.

Efeitos colaterais mais comuns

Mesmo quando usadas corretamente, as canetas podem causar efeitos colaterais. Quando o uso é desregrado ou em doses erradas, eles tendem a ser mais intensos. Entre os sintomas relatados com frequência estão:

  • náuseas, enjoo e vômitos;
  • diarreia ou prisão de ventre;
  • dor abdominal e distensão (barriga estufada);
  • tonturas, fraqueza e mal-estar geral;
  • perda excessiva de apetite, que pode levar a déficit nutricional.

Em situações mais graves, podem ocorrer inflamações no pâncreas, alterações na vesícula biliar e descompensações em doenças pré-existentes. Por isso, qualquer sintoma mais intenso precisa ser avaliado por um profissional.

O impacto psicológico: quando o corpo vira projeto

Outro ponto pouco discutido é o efeito emocional. Escolher usar um remédio potente apenas por pressão estética pode reforçar:

  • insatisfação crônica com o corpo;
  • comparações constantes com padrões irreais de beleza;
  • comportamentos de risco, como dietas extremas combinadas ao uso da medicação;
  • culpa e frustração se o resultado não for “perfeito” ou se o peso voltar.

Em muitos casos, o que a pessoa precisa não é de um remédio mais forte, e sim de apoio psicológico, orientação nutricional adequada e uma relação mais saudável com a própria imagem.

Comprar sem receita, manipular sem controle: um alerta necessário

A busca por essas canetas em farmácias de manipulação, esquemas de venda paralela, grupos de redes sociais e até anúncios clandestinos é outro ponto preocupante. Nessas situações, os riscos aumentam ainda mais:

  • produto sem procedência segura;
  • fórmulas manipuladas sem controle adequado de dose;
  • armazenamento incorreto, que compromete a eficácia e a segurança;
  • ausência total de acompanhamento médico e de exames.

O que parece uma “economia” na consulta e na receita pode sair caro na forma de internações, sequelas ou agravamento de doenças.

Estética não é diagnóstico

Querer se sentir bem com o próprio corpo é legítimo. Cuidar da saúde, reduzir peso quando há indicação clínica e buscar bem-estar físico são metas importantes. Mas é preciso separar claramente:

  • emagrecimento por saúde: quando o peso compromete o organismo (diabetes, hipertensão, apneia do sono, dores articulares, etc.), sob avaliação médica;
  • emagrecimento puramente estético: quando a motivação é apenas se encaixar em um padrão ou atender à expectativa dos outros.

Canetas emagrecedoras são, na melhor das hipóteses, uma ferramenta pontual dentro de um plano maior de tratamento – e nunca uma solução isolada para “caber” em um molde de beleza.

Quando o uso pode fazer sentido

Em alguns casos, as canetas podem ser indicadas por médicos (endocrinologistas, nutrólogos, clínicos, entre outros), especialmente quando:

  • obesidade ou sobrepeso com fatores de risco importantes;
  • já foram tentadas mudanças de estilo de vida sem resultado suficiente;
  • o paciente aceita acompanhamento regular, exames e ajustes de dose;
  • há um plano claro de reeducação alimentar e atividade física associado.

Nesses casos, o objetivo vai além da estética: é reduzir riscos cardiovasculares, controlar glicemia, melhorar a qualidade de vida e diminuir a chance de complicações no futuro.

O que fazer antes de pensar em caneta emagrecedora

Antes de cogitar usar qualquer medicamento para emagrecer, vale considerar alguns passos:

  • procurar um médico de confiança para avaliar seu caso individualmente;
  • fazer exames e entender seu estado de saúde atual;
  • consultar um nutricionista para ajustar alimentação de forma realista e sustentável;
  • começar atividade física adequada à sua rotina e condição física;
  • avaliar, se necessário, apoio psicológico para trabalhar autoestima e relação com o corpo.

Se, depois disso, houver indicação de algum medicamento, ele será usado de maneira planejada, com acompanhamento e dentro de um contexto de cuidado integral – e não como solução mágica.

Conclusão: saúde não é efeito colateral

As canetas emagrecedoras podem ter seu lugar na medicina, mas não são brinquedo, nem cosmético. Usá-las por conta própria, apenas por estética e sem acompanhamento, é assumir riscos que muitas vezes não aparecem nas postagens “antes e depois” das redes sociais.

Cuidar do corpo é importante. Mas a prioridade precisa ser sempre a mesma: preservar a saúde, e não sacrificá-la em nome de um padrão de beleza passageiro.

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