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Como vivem os venezuelanos com a possibilidade de ataque dos EUA: “O que mais preocupa é a comida”

Venezuela cercada por navios de guerra norte-americanos, discursos inflamados do presidente Nicolás Maduro, ameaças de ataque vindas de Washington e rumores de bombardeios a qualquer momento. No papel, o país vive em clima de pré-guerra. Na prática, porém, o que ocupa a cabeça da maior parte dos venezuelanos é algo bem mais imediato: como garantir comida na mesa até o fim do dia.

Enquanto o governo pede que a população esteja pronta para “defender a pátria” e exibe imagens de tropas, mísseis e aviões em rede nacional, muitos cidadãos admitem que, se a guerra chegar, pouco poderão fazer. A batalha diária já é outra: enfrentar inflação alta, salários que não cobrem o básico, desabastecimento e preços que mudam de um dia para o outro.

Vida sob a sombra de um ataque, com a geladeira quase vazia

Nos bairros populares de Caracas e de cidades do interior, a rotina continua marcada por filas em mercados, longas caminhadas atrás de promoções e trocas informais de alimentos entre vizinhos. As notícias sobre um possível ataque dos Estados Unidos circulam, geram medo e discussões, mas logo são engolidas por uma preocupação mais concreta: o que haverá para o jantar.

Em meio a boatos de bombardeios e fechamento do espaço aéreo, vendedores ambulantes seguem empurrando seus carrinhos, mães saem de casa cedo para tentar encontrar farinha, arroz, óleo e proteínas mais baratas, e aposentados contam moedas para comprar o mínimo possível. Muitos venezuelanos dizem que, mesmo temendo uma escalada militar, não têm tempo nem energia para pensar o dia inteiro em algo tão distante quando a fome é uma ameaça diária.

Inflação, salários baixíssimos e comida cada vez mais cara

A crise econômica prolongada fez da ida ao supermercado um exercício de sobrevivência. A inflação corrói o valor do salário quase na mesma velocidade com que os preços sobem nas prateleiras. Em boa parte do país, o que se ganha em um mês não paga nem de perto a cesta básica completa.

Com isso, estratégias extremas se tornam comuns: famílias que reduzem o número de refeições por dia, priorizam as crianças e idosos, substituem proteínas por carboidratos mais baratos ou dependem de cestas distribuídas por programas governamentais ou organizações religiosas. Muitos contam que voltaram a plantar pequenos hortas em quintais, varandas e terrenos baldios, tentando garantir ao menos alguns legumes e verduras sem depender totalmente do mercado.

Os pacotes de alimentos subsidiados pelo governo chegam de forma irregular e, muitas vezes, com qualidade questionável. Quando demoram ou não aparecem, a diferença entre comer e passar fome pode depender da solidariedade de vizinhos, paróquias ou grupos comunitários.

Medo político, sensação de impotência e silêncio nas ruas

Além do medo da guerra e da fome, existe outro fantasma que pesa sobre o dia a dia dos venezuelanos: a repressão política. Com o aumento da presença de forças de segurança nas ruas e uma vigilância constante, muitas pessoas evitam falar abertamente sobre o governo ou sobre a possibilidade de ataque dos EUA. Reclamar em voz alta pode ser interpretado como traição, apoio ao “inimigo” ou incitação ao caos.

Em várias regiões, moradores relatam a presença de militares, policiais e agentes à paisana monitorando bairros, mercados e fronteiras. Em vez de protestos massivos, prevalecem o silêncio e a adaptação: cada um tenta resolver sua própria crise familiar, enquanto acompanha as notícias com cautela e desconfiança.

Nas conversas privadas, porém, a percepção se repete: “Se vier uma bomba ou se não vier, eu continuo com o mesmo problema – não tenho dinheiro para comprar tudo o que minha família precisa”. É uma espécie de cansaço coletivo, em que o medo da guerra se soma ao desgaste de anos de crise econômica.

Quando o futuro é incerto, o foco é sobreviver ao presente

Para muita gente, imaginar como seria um conflito direto entre Estados Unidos e Venezuela é um luxo que não cabe no orçamento emocional — nem no financeiro. As ameaças externas, os anúncios de manobras militares e as mensagens patrióticas disputam espaço com preocupações mais básicas e urgentes, como o preço do pão, a falta de remédios e a conta de luz.

Em vez de abrigos antibomba, o que se vê são famílias reformulando cardápios, improvisando fogões a lenha quando falta gás, fracionando alimentos e calculando cada gasto. Em meio à tensão geopolítica, o cotidiano continua girando em torno da pergunta mais simples e brutal de todas: o que vamos comer amanhã?

No discurso oficial, o inimigo está do lado de fora, nos navios e aviões estrangeiros. Na vida real da maioria dos venezuelanos, o inimigo mais temido está dentro de casa: a combinação de inflação, escassez e salários que não acompanham o custo da sobrevivência. A guerra pode ou não acontecer; a luta diária contra a fome, essa, já está em curso faz tempo.

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