O jovem que passa horas por dia consertando notas de dinheiro velhas e rasgadas em Gaza
Em meio aos escombros, à falta de eletricidade e à economia em colapso, um jovem palestino encontrou um trabalho improvável para tentar sobreviver na Faixa de Gaza: passar horas todos os dias consertando notas de dinheiro velhas, rasgadas e sujas. Em um território onde bancos vivem fechados, saques são limitados e quase não circulam cédulas novas, até o dinheiro que, em outro lugar seria descartado, vira um bem precioso demais para ser jogado fora. [oai_citation:0‡The Standard](https://www.thestandard.com.hk/world-news/article/318107/The-tiring-task-of-repairing-Gazas-tattered-banknotes?utm_source=chatgpt.com)
Sentado em uma pequena banca improvisada em um mercado lotado, ele se apoia em ferramentas simples: um pote de cola, uma lâmina, fita adesiva, uma régua improvisada e, principalmente, paciência. Cada cédula que chega às suas mãos carrega não só rasgos e furos, mas também a marca de meses de guerra, deslocamento forçado e escassez de tudo — inclusive de dinheiro em bom estado.
Uma economia em que até o dinheiro está em ruínas
A crise em Gaza é tão intensa que o sistema financeiro mal funciona. Com bancos danificados, caixas eletrônicos sem abastecimento e restrições severas à entrada de moeda em espécie, as poucas notas que circulam passam de mão em mão até ficarem quase irreconhecíveis. Algumas chegam cortadas ao meio, outras foram queimadas, molhadas ou remendadas de qualquer jeito pelos próprios donos. [oai_citation:1‡The Standard](https://www.thestandard.com.hk/world-news/article/318107/The-tiring-task-of-repairing-Gazas-tattered-banknotes?utm_source=chatgpt.com)
Nesse cenário, o jovem reparador se tornou uma figura conhecida no mercado local. Vendedores, trabalhadores informais e famílias inteiras levam até ele cédulas que seriam recusadas em muitas lojas. Ali, sobre uma mesa manchada de cola, notas de diferentes valores ganham uma “segunda vida”, o suficiente para continuarem sendo aceitas nas compras do dia a dia.
Cola, fita e esperança: o trabalho milimétrico com cada nota
O processo é minucioso. Primeiro, ele alisa a nota com cuidado, tentando recuperar o formato original. Depois, reposiciona as partes rasgadas como se fosse montar um quebra-cabeça. Em seguida, aplica pequenos toques de cola ou de fita transparente, sempre tentando não cobrir números de série, marcas d’água e elementos de segurança que ainda restam.
Quando o dano é muito grande, ele orienta o dono da cédula sobre o risco de recusa: algumas notas remendadas ainda conseguem circular nos mercados de bairro, mas dificilmente seriam aceitas por bancos ou casas de câmbio. Ainda assim, em uma realidade onde cada unidade de moeda conta, muita gente prefere tentar.
Ganhar a vida com o que os outros jogariam fora
O jovem cobra valores simbólicos por cada conserto — às vezes uma pequena porcentagem da nota, às vezes apenas um trocado. Em muitos casos, acaba aceitando parte do pagamento em alimentos ou em produtos do próprio mercado, em um sistema de troca que voltou a ganhar força em Gaza diante da escassez de recursos.
Para ele, o trabalho significa mais do que uma renda modesta: é uma forma de manter algum tipo de dignidade em meio ao caos. “Se eu conseguir salvar uma nota”, costuma dizer aos amigos, “talvez esteja salvando também a compra de pão de alguém”.
Quando o dinheiro conta histórias
Cada cédula recuperada traz uma narrativa silenciosa. Notas amassadas que passaram por sucessivas mudanças de endereço; pedaços queimados que lembram casas atingidas por explosões; marcas de umidade que denunciam noites em tendas improvisadas e dias de chuva sem abrigo adequado. Em Gaza, o dinheiro não é apenas meio de pagamento: é também testemunha da guerra.
O jovem reparador ouve histórias enquanto trabalha: mães que perderam tudo e guardam, naquelas notas, o único recurso que lhes resta; idosos que carregam economias de uma vida inteira em cédulas quase destruídas; comerciantes que lutam para manter o pequeno negócio em funcionamento mesmo sem acesso ao sistema bancário. [oai_citation:2‡Reuters Connect](https://www.reutersconnect.com/item/palestinian-mother-repairs-damaged-banknotes-to-support-her-family-in-nuseirataaaaaa/dGFnOnJldXRlcnMuY29tLDIwMjU6bmV3c21sX01UMUFOQURMMDAwRUtXWUtB?utm_source=chatgpt.com)
Um trabalho pequeno em um problema gigante
Consertar notas rasgadas não resolve a crise econômica nem a destruição causada pela guerra. Mas, na escala do cotidiano, o ofício desse jovem ajuda famílias a comprar comida, remédios e itens básicos. Em um lugar onde quase tudo falta, o que ele faz é transformar o que restaria no lixo em algum poder de compra.
No fim do dia, as mãos dele ficam cobertas de cola e tinta desbotada, e a mesa está cheia de retalhos de papel. Ainda assim, ele volta no dia seguinte, abre a banca e se prepara para outra fila de notas feridas — e de pessoas que, como o próprio dinheiro, tentam continuar circulando, apesar de tantos rasgos.
Em Gaza, onde futuro e presente parecem permanentemente remendados, o trabalho desse jovem é um retrato simples e poderoso de resistência: restaurar, com gestos pequenos, aquilo que o conflito insiste em destruir.
